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O cordel e sua estrutura

O cordel é um grande texto oral e escrito ao mesmo tempo, porque ele é feito para ser lido em voz alta, e que se constitui basicamente de dois aspectos: do relato mítico, ancestral, que conta histórias de princesas, de cavalaria, de encantamento, de heróis, etc., e que dialogam intimamente com questões ligadas à Idade Média. Por outro lado, o cordel também faz o relato do que acontece, ou seja, do reconhecimento da Palestina como um 194o Estado do mundo, da CPI dos deputados, de um desastre, de um campeonato de futebol, o que funciona como uma forma de jornalismo popular. Além disso, o poema, para ser um cordel, deve obedecer a uma estrutura poética fixa, com poucas variações de métrica e rima.

O cordel teve suas primeiras edições nas primeiras prensas nordestinas, no Recife, na virada do século XIX para o XX, com o pioneirismo do poeta Leandro Gomes de Barros. Com o ritmo cadenciado, com um aspecto lúdico, os folhetos de cordel aproximaram pessoas que queriam ouvir histórias e foram a escola de alfabetização para a população do sertão nordestino.

Estrutura do cordel

Os poemas em cordel seguem regras de métrica e rima inescapáveis, sem elas não se faz um cordel. Seguem abaixo alguns dos modelos possíveis:

Sextilha

Geralmente, o cordel é escrito em forma de sextilha, estrofes de seis versos, com versos de sete sílabas poéticas. Obrigatoriamente, o segundo, o quarto e o sexto versos devem rimar entre si. Para exemplificar, segue abaixo a primeira estrofe do cordel “O Pavão Misterioso”, de José Camelo de Melo Rezende, um dos cordéis mais lidos até hoje:

1o  Eu/ vou/ con/tar/ uma/ his//ria [não rima]
2o De um pavão misterioso [rima]
3o Que levantou vôo na Grécia [não rima]
4o Com um rapaz corajoso [rima]
5o Raptando uma condessa [não rima]
6o Filha de um conde orgulhoso. [rima]

Setilha

Também usada, a setilha, com estrofes de sete versos, tem a seguinte rima: o segundo, quarto e o sétimo verso rimam entre si e o quinto e sexto têm uma segunda rima entre si. Como exemplo, segue abaixo o cordel “As coisas do meu sertão”, do poeta Zé Bezerra de Carvalho.

1o Já falei de saudade [não rima]
2o Tristeza e ingratidão [rima 1]
3o De amor e de prazer [não rima]
4o E cantei de emoção [rima 1]
5o Quero agora cantar [rima 2]
6o E também quero falar [rima 2]
7o Das coisas do meu sertão [rima 1]

Décima

A Décima, mais usada pelo repente, é uma estrofe de dez versos de sete sílabas poéticas, ela é o gênero usado pelos cantadores repentistas para os versos de mote. Nas décima, as rimas são: o primeiro  verso rima com o quarto e quinto, o segundo rima com terceiro, o sexto rima com o sétimo e décimoo, e o oitavo rima com o nono. Segue abaixo um trecho em décima do cantador Ugolino do Sabugi:

1o As obras da Natureza [rima 1]
2o São de tanta perfeição, [rima 2]
3o Que a nossa imaginação [rima 2]
4o Não pinta tanta grandeza! [rima 1]
5o Para imitar a beleza [rima 1]
6o Das nuvens com suas cores, [rima 3]
7o Se desmanchando em louvores [rima 3]
8o De um manto adamascado [rima 4]
9o O artista, com cuidado, [rima 4]
10o Da arte aplica os primores [rima 3]

Martelo agalopado

O cordel também pode ser feito em martelo agalopado, embora seja mais raro e seja mais usado pelos cantadores repentistas. No caso, a estrofe deve ter dez versos de dez sílabas poéticas, sendo que cada verso tem que ter a acentuação tônica na terceira, sexta e décima sílabas poéticas. A rima segue o mesmo padrão da décima. Para exemplificar, os versos de Marco Haurélio no cordel “Galopando o cavalo pensamento”:

A Se/nho/ra/ dos/ /mu/los/ ob/serva [10 sílabas poéticas, sílabas fortes em negrito]
O vaivém da tacanha mocidade,
Que despreza a virtude e a verdade
E dos vícios se mostra fiel serva,
Porém nada no mundo se conserva:
Sendo a vida infindo movimento,
É a Morte um novo nascimento
A inveja é o túmulo dos vivos —
O herói repudia esses cativos,
Galopando o Cavalo Pensamento.

Galope à beira-mar

Há também o galope à beira-mar, de estrofes com dez versos de onze sílabas poéticas, com as tônicas na segunda, quinta oitava e décima primeira sílabas poéticas, obedecendo às mesmas regras de rima da décima, sendo que também é mais comum no repente e a última estrofe deve terminar com “mar”. A estrofe a seguir, do cantador de repente Dimas Batista, exemplifica:

Can/tan/do/ Ga/lo/pe/ nin/guém/ me/ hu/milha, [sílabas fortes em negrito]
Pois tudo que existe no mar aproveito,
Na ilha, no cabo, península, estreito,
Estreito, península, no cabo, na ilha,
No barco, na proa, em bússola e milha!
Medindo a distância eu vou viajar,
Não quero, da rota, jamais me afastar,
Porque me afastando o destino saí torto;
Confio em Deus pra avistar o meu porto,
Cantando Galope na beira do mar!

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