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Apresentação

Quem conhece os títulos de todos os livros que Dumas assinou? Será que ele próprio os conhece? Se ele não manteve um registro com duas colunas, a de débito e a de crédito, evidentemente ele terá se esquecido…  De mais de um desses filhos, de quem ele é o pai legítimo, ou o pai natural, ou o padrinho. As produções desses últimos meses somam mais de trinta volumes.

Paulin Limayrac “Du Roman actuel ET de nos romanciers” Revue dês Deux Mondes, XI, Paris, 1845, n. 3, PP. 953-954. – in BENJAMIN, Walter – Passagens.

“Por que o cordel em São Paulo?” — foi essa a pergunta que saiu da boca de um diretor de teatro de Santo André em meados do mês de junho, após assistir a uma peça baseada em um folheto de cordel. “Por que falar de um mundo nordestino tão distante dessa cidade? Para que resgatar isso? A peça carece de um motivo.”. Em outra ocasião, na semana seguinte, a mesma pergunta foi feita a Jerusa Pires Ferreira, uma das maiores referências no estudo da oralidade, do conto popular e da literatura de cordel e que, aos seus 74 anos, mantém uma atividade acadêmica intensa e apaixonante. Depois de questionada sobre por que falar de cordel em São Paulo, ela respondeu: “Ora, o cordel é um fenômeno raro e extraordinário, da manutenção de uma cultura. Ele tem uma matriz nordestina que se irradia pelo Brasil a fora e que constitui um forte viés identitário”.

Trinta anos atrás, quando Jerusa se mudou da Bahia para São Paulo, ela encontrou, dando continuidade às suas pesquisas anteriores, cantadores de repente e poetas de cordel nordestinos concentrados no Brás — bairro que abrigou a indústria fonográfica —, que imigraram para a capital paulista, junto com uma multidão de outros nordestinos, em busca de oportunidades e sonhos. Não por acaso, hoje São Paulo é a cidade com o maior número de nordestinos em todo Brasil.

Acompanhando essa trajetória, a cantoria, o repente e o cordel proliferaram-se na capital — e também pelos outros cantos do país — a partir das novas condições presentes nesse universo urbano, simbolizadas, por exemplo, pela proximidade com a maior e mais antiga editora de cordel do país até hoje: a Luzeiro. Atualmente localizada na Praça da Árvore, a editora — que nasceu há exatos 100 anos, com outro nome, local e estrutura — tem o maior acervo de cordéis a serem relançados, com obras raríssimas, e é a editora mais procurada para novas publicações.

Diferentemente de outros lugares, o cordel, na década de 80, adquiriu público em São Paulo. Os folhetos eram espalhados no chão e eram vendidos aos montes em feiras para todos os tipos de pessoas, especialmente o público da periferia urbana e do centro da capital paulista. Por exemplo, na feira da Praça da Sé, no coração da capital, os cordelistas distribuíam os folhetos pela calçada e os vendiam a um preço muito acessível. No centro da cultura popular, nas bordas do que é chamado de cultura nos jornais, revistas e na televisão e ganhando um espaço digno de nota na internet, o cordel em São Paulo existe e é vivo.

O cordel tem raízes muito antigas e não existe só no Brasil, apesar de ter adquirido características próprias no país. As primeiras literaturas de folhetos surgiram na Alemanha e na Holanda, na época de Gutemberg, com marcas ligadas à Idade Média, que se conservam até hoje. Quando a imprensa foi descoberta, essa tecnologia não foi democratizada para todos e, por isso, as classes populares destas regiões, que não tiveram acesso a ela, recorreram à impressão em forma de folheto. Dessa forma, este texto de caráter popular ganhou uma estética singular, com ilustrações de todos os tipos, principalmente da xilogravura, uma das técnicas mais utilizadas nas edições de cordel até hoje.

No Brasil, a tradição de poesia oral  já era forte quando a imprensa chegou ao nordeste. Com a presença dela, os registros mais arcaicos foram passados para o folheto no final do século XIX, sendo Leandro Gomes de Barros um dos maiores pioneiros do cordel. Uma das singularidades da literatura de cordel brasileira é que ela se manteve intimamente ligada à oralidade presente no nordeste. O oral tomou a forma de folheto.

O cordel é um grande texto oral e escrito ao mesmo tempo, porque ele é feito para ser lido em voz alta, e que se constitui basicamente de dois aspectos: do relato mítico, ancestral, que conta histórias de princesas, de cavalaria, de encantamento, de heróis, etc., e que dialogam intimamente com questões ligadas à Idade Média. Por outro lado, o cordel também faz o relato do que acontece, ou seja, do reconhecimento da Palestina como um 194o Estado do mundo, da CPI dos deputados, de um desastre, de um campeonato de futebol, o que funciona como uma forma de jornalismo popular. Além disso, o poema, para ser um cordel, deve obedecer a uma estrutura poética fixa, com poucas variações de métrica e rima.

Por muito tempo, o cordel foi considerado como uma “literatura de pouco merecimento”, como mostra a imagem abaixo de um dicionário antigo de língua portuguesa, de Portugal. Muitos cordelistas afirmam que, até dez anos atrás, “O cordel era chamado de literatura menor, de coisa de nordestino, de coisa de pobre, de coisa de analfabeto.” E questionam: “Como dizem que é coisa de analfabeto se é escrito?”. Estes poetas se posicionam como militantes do cordel e da cultura popular nordestina, entre os poetas que militam em São Paulo estão: Moreira de Acopiara, Marco Haurélio, João Gomes de Sá, Varneci Nascimento, Nando Poeta e muitos outros.

Nos últimos dez anos, o cordel conseguiu conquistar mais espaço: passou a ser considerado por mais pessoas como literatura, virou tema nas escolas e foi editado por editoras do grande mercado editorial. Mesmo assim, a desvalorização do cordel continua evidente e ainda existem muitos aspectos dele, como sua imensa complexidade, que precisam ser reconhecidos.

“Diccionário contemporâneo da língua Portuguesa”, de Francisco Júlio de Caldas Aulete, publicado em Lisboa no ano de 1881. Esse dicionário ficou conhecido no Brasil como Dicionário Caldas Aulete.

Está em pauta neste projeto: a produção da literatura de cordel e dos gêneros ligados a ela, como a cantoria de repente e da contação de causos e histórias, na cidade de São; as trajetórias dos protagonistas desta literatura em São Paulo, ou seja,  dos cordelistas, repentistas e contadores de histórias e causos, que residem na cidade e que, majoritariamente, são imigrantes nordestinos. Além de contar estas histórias, a ideia também é de apresentar os temas e questões que emergem do trabalho literário de cada um destes personagens, que, por muitos, continua sendo excluído do que é considerado como literatura brasileira.

Outro objetivo é mostrar o cordel o cordel nas ruas da cidade, em eventos, em escolas, em bibliotecas, em teatro, etc.  Busca-se também mostrar a presença do cordel no texto, na cantoria e na oralidade e evidenciar como, em todas essas circunstâncias, ele remete a uma tradição antiga, seja quando fala de histórias lendárias, seja quando fala de questões contemporâneas. Com ritmo, métrica e rimas, o cordel reúne o tradicional e o moderno, o rural e o urbano, o local e universal, o nordeste e o sudeste.

Segundo Marco Haurélio, um dos cordelistas residentes em São Paulo:

A literatura de cordel continua viva, por ter sabido acompanhar as mudanças impostas pelo tempo, sem perder o contato com a tradição e sem esquecer de olhar a contemporaneidade.

 

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