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Eufra Modesto

Eufra Modesto (Eufra de Eufraudísio) é considerado por muitas figuras da cultura popular, entre elas o poeta de cordel João Gomes de Sá e o folclorista Bosco Maciel, como um dos maiores contadores de causos da atualidade.  Em entrevista concedida no dia 26 de agosto deste ano, no Vale do Anhangabaú, durante a homenagem paulistana aos 100 anos de Gonzagão, o Rei do Baião, Eufra conta seu caminho pelo mundo da cultura popular e revela seus ideais, gostos, preocupações e a nostalgia que sente  do nordeste.

A: Você conta causos, canta e tudo isso com uma linguagem corporal própria e com muita afinação. Conte um pouco da sua vida e de onde partiu o interesse de contar causos.

E: Eu nasci numa cidade do sul da Bahia chamada Floresta Azul, próxima de Ilhéus, no dia 12 de julho de 1951, tenho 61 anos. Não acredito nesse negócio de signo, mas sou de câncer. Vim para São Paulo com 18 anos e trouxe de lá referências da capoeira e as lembranças de criança: a contação de causos, a contação de histórias, as anedotas que os antigos sempre contavam e as cantigas de roda – o costume de todo final de tarde das crianças daquela região era se juntarem, darem as mãos e cantarem as cantigas. Vivi muito isso na minha infância, tudo acontecia em cima disso e era tudo muito pobre. Os forrós eram em chão batido com a luz do pavio de algodão com querosene.

Sempre tive orgulho de ser nordestino.

Quando cheguei em São Paulo, muita coisa estranhei: os nordestinos que viviam aqui negavam que eram nordestinos. Alguns diziam que não gostavam de forró quando na verdade gostavam. Sempre tive orgulho de ser nordestino. Voltei pra Bahia há pouco tempo e dei bronca em um monte de gente que fica cantando “Ai se eu te pego”, falei “Gente, não é isso, vocês estão muito fora de órbita. Nosso mundo é outro, nosso mundo é muito mais valoroso”.

Estou há 41 anos em São Paulo e ainda sinto que não cheguei aqui.

Comecei a trabalhar de operário de construção civil quando cheguei a São Paulo. Passei por várias trilhas de culturas estrangeiras, fui rockeiro, fui adepto do Raul Seixas — e sou até hoje —, gosto do samba do Paulinho da Viola, do João Nogueira, mas a música popular, a boa canção sempre esteve paralela a essas coisas. Estou há 41 anos em São Paulo e ainda sinto que não cheguei aqui. Pode ser que eu não consiga pôr o outro pé aqui porque penso em voltar para a Bahia.

Com o tempo, comecei a me aprimorar na canção do Clube da Esquina, do Milton Nascimento, que falava muito da natureza, da terra, da família. Nunca cantei profissionalmente, mas tocava com os amigos, com os vizinhos do bairro onde eu morava. Em certo momento, comprei vários discos de cantigas e cantorias. Num desses discos tem um poema, que é um causo, chamado “Maria”, que é um causo que fala da mulher que fugiu e depois voltou cheia de filhos e eu acabei me interessando em declamar esse causo.

Conto incorporando o personagem do causo.

Paralelamente a isso, sempre fiz teatro amador e foi dele que veio a vontade de não só declamar o causo, o texto, mas também de interpretar o personagem. Nunca conto um causo apenas textual, como um relato, sempre conto incorporando o personagem do causo. Acaba sendo um causo monólogo teatral.

O mais importante para ser contador é ter o dom.

Não me coloco como um artista profissional. Faço muitos shows, mas sou um cantador popular e um contador de causos. Tem por aí algumas pessoas, inclusive artistas amigos meus, que dizem que eu sou o melhor contador de causos do Brasil. Discordo deles porque a gente não conhece todos os contadores de causos.

No Sesc tem cursos para contadores de histórias, eu questiono esses cursos porque acho que deve ter cursos para aprimorar a linguagem, a expressão facial e corporal, que é muito importante na contação de história, mas o mais importante para ser contador é ter o dom, se a pessoa não tem o dom, pode fazer quantos cursos forem, que ela não vai conseguir contar o causo. No cordel, o poeta também tem que ter o dom de ser cordelista. Então, a contação de história e a contação de causos para mim 90% é dom e os outros 10% é aprimoramento, linguagem e dicção.

O rádio não toca, a televisão não toca.
A: Você também canta e toca. Como é isso?

E: A contação de causo veio muito depois da música. Comecei a fazer um repertório de músicas boas e com conteúdo, principalmente músicas de origem nordestinas. Pesquisei canções e cantigas muito bonitas que o rádio não toca, a televisão não toca, que o público não tem acesso. Percebi que tem canção que por si só já conquista as pessoas, não precisa tocar várias vezes no rádio e na televisão.

“Você tem uma bela voz, uma voz forte. É um bom cantor” e eu digo “Não, eu sou um cantador. Não é a mesma coisa. Um cantor necessariamente tem que estudar, tem que ter a técnica da voz”. Cantei em coral 18 anos, no coral da Unifesp, e aprendi muito, mas mesmo assim continuo sendo um cantador porque acho que ele não se prende à técnica, ele se dedica à mensagem e quer levá-la de canto a canto. Tanto é que eu moro em Várzea Paulista, estou me apresentando aqui agora [Vale do Anhangabáu] e daqui vou para um sarau em Guarulhos. Ontem estava em Caieiras, mas passei pelo Jaçanã antes. Participo, em média, de dez saraus por semana.

 

A: Você vive da contação de causos e das cantigas?

E: Não, elas não me sustentam. Sou supervisor de cultura da cidade de Várzea Paulista e ganho para isso, mas aproveito para levar às atividades culturais da cidade a mensagem dos causos, dos cordéis, dos trovadores e das cantigas. Faço um trabalho nas 30 escolas da rede municipal fazendo cantigas para crianças de 4, 5, 6 e 8 anos.

O professor me recebeu como professor de Ciências Sociais da USP.
A: Como começou seu trabalho com educação e cultura?

E: Fui treinador de monitoria do Banespa, fui agente cultural, coordenador de pedagogia na Febem e fui, no final da década de 80, assessor do primeiro ministro da cultura chamado Celso Furtado. Aqui em São Paulo, fui assessor da Erundina nos quatro anos de mandato dela, do qual me orgulho até hoje, foi o melhor governo que uma cidade já teve no Brasil. Ontem dei duas palestras sobre cultura popular, cultura tradicional e investimento cultural no CEU Jaçanã. As pessoas acham que sou um filósofo e eu sou autodidata. Fui dar uma palestra em Matão, no interior de São Paulo, e o professor me recebeu como professor de Ciências Sociais da USP e eu não pude desmentir porque o cara falou isso para todo público. Tive que incorporar esse professor durante a palestra.

A maioria deles é analfabeto na área da cultura popular
A: O causo Campanha Eleitoral que você conta é muito politizado. Você acha importante falar de política na contação de causos?

E: Eu tenho três causos que falam de política, do político, da campanha. Esse causo que você citou é do pernambucano Maviael Melo e fala da situação da campanha eleitoral. Acho super importante esses temas mais politizados porque isso contribui com a reflexão sobre o quadro político atual, que é deprimente. As pessoas não acreditam nos políticos não porque elas não querem acreditar, mas porque eles não fazem jus a isso.

Um vereador de São Paulo, um deputado, todas essas figuras não entendem essa linguagem do cordel, da cantoria e da contação de causo, mas o povo entende. A maioria deles é analfabeto na área da cultura popular. Se perguntar a um deputados “O que é a cultura popular para você?”, ele não vai saber te responder. Por que não? Ele não quer responder e é mal intencionado? Não, é desconhecimento mesmo, são poucos os que têm alguma informação e que conseguem dar resposta interessante. Não estou querendo radicalizar, mas acho que de cem se tira cinco ou seis.

Cantar é uma expressão da alma
A: E o que é cultura popular para você?

E: Cultura popular para mim é a expressão natural do povo, é o fazer do povo. Desde a ação do convívio na sua família, da brincadeira com o filho e daquilo que trás a emoção e a revelação dos seus saberes. Isso já é traduzido como cultura popular. Qualquer pessoa tem uma porcentagem de cultura popular interiorizada, a dificuldade é reconhecer isso e externar isso. As pessoas falam “Eu não sei cantar cantiga”, e eu digo “Não, você sabe. Você talvez não cante profissionalmente, mas cantar não é para ganhar dinheiro. Cantar é uma expressão da alma”. As pessoas cantam quando estão muito alegres, mas também cantam quando estão muito tristes.

Nunca pensei em ter fãs
A: E como é sua vida particular?

E: Já fui casado duas vezes, não deu certo. Hoje sou solteiro. Tenho um monte de fãs por causa da minha arte. Gosto muito de namorar e de admirar as mulheres inteligentes. Sou um homem normal. Nos últimos tempos, estou ficando meio incomodado porque essa história da minha arte, porque ela cresceu muito. Estou indo a muitos lugares, onde percebo que eu tenho fãs. Nunca pensei em ter fãs, me dando presentes de ouro e essas coisas. Ontem mesmo fizeram uma fila pra eu dar autógrafo, eu falo “Gente, não sou artista, vocês estão se confundindo”. É muito engraçado isso.

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