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Marco Haurélio

Marco Haurélio

O pesquisador e poeta de cordel Marco Haurélio, do sertão da Bahia, conta sua trajetória e fala sobre a história do cordel, em entrevista feita no dia 9 de maio deste ano, em Perdizes, São Paulo.

O sertão, a avó e o cordel

.A: Conte um pouco da sua vida e sua trajetória no universo do cordel.

MH: Nasci em 1974 na Ponta da Serra, que fica no sertão da Bahia, município de Riacho de Santana. Ao lado da casa onde nasci, que era na roça mesmo, tinha a casa da minha avó Luzia, que a gente chamava de Inha. Minha avó tinha um armário com um monte de folhetos de cordel. E eu, antes de começar a ler, já folheava, olhava os desenhos na capa, achava interessante.

 Eu via que minha avó tinha uma voz da tradição, que conseguia reunir informações que não estavam em biblioteca nenhuma

Minha avó sabia de cabeça um monte de romances tradicionais, aí eu ouvia dela histórias quase sempre trágicas, como a de “Juliana e Dom Jorge”, que não é uma história tradicional só em Portugal e na Espanha, mas também em outros países da Europa. E é chamada de romance porque a forma original daquilo que se definiu como romance é em versos. Isso foi na minha infância e quando eu, já adulto, comecei a pesquisar as raízes tradicionais dessas histórias, que associava ao meu trabalho como cordelista, eu ficava deslumbrado, porque eu via que minha avó, que morreu em 1982, tinha uma voz da tradição, que conseguia reunir, dentro do acervo de conhecimento dela, informações que não estavam em biblioteca nenhuma, que pesquisador nenhum poderia reunir, porque isso é um patrimônio que se passa de pai para filho, de geração em geração.

Antigos cordéis de Marco Haurélio

É óbvio, ela não sabia a importância disso, mas foi realmente muito significativo para a minha formação. Este cordel aqui [mostra com as mãos], o Belisfronte, o filho do pescador foi feito a partir de uma história que ela contava. Estes outros cordéis eram dela: Os Milagres do Padre Antônio, Os Trabalho de Maria Milsa e Os Milagres de Nossa Senhora das Graças. A partir destes títulos dá pra perceber que minha avó era uma pessoa muito religiosa, de tradição católica, como a maioria das pessoas daquele tempo.

 Sou quase um panteísta, embora eu seja católico de formação.

A: Sua avó era muito católica. Você é o quê?

MH: Hoje nem saberia me definir… Sou quase um panteísta, embora eu seja também católico de formação. Mas não sou praticante, não simpatizo com aquela figura sinistra do Bento XVI. Essa tradição religiosa está muito presente no cordel, a maior parte dos autores tem formação católica. Nas histórias de sofrimento, por exemplo, sempre tem uma evocação quando a moça está perdida em uma ilha, à beira da morte. Mas isso não impede que os poetas exercitem a sátira, como você pode ver no O Auto da Compadecida: a figura do padre é mostrada, com muita perspicácia, com todos os vícios que caracterizam determinados setores da igreja.

Nas prateleiras

.A: Sua avó tinha um acervo em sua memória e no armário da sua casa. E o seu acervo?

MH: Eu também tinha vários títulos de Leandro Gomes de Barros, que é o pai do cordel no Brasil, o grande desbravador dessa seara, de Silvino de Pirauá, que é o autor da História da Princesa Rosa, de Minelvino Francisco Silva, que é um autor baiano, de Manuel D’Almeida Filho, etc.

 Leandro fez com que o diálogo entre o mundo tradicional do sertão e a visão contemporânea que a vida na cidade impunha se efetivasse.

O Minelvino e o Manuel D’Almeida já nasceram no século XX. Leandro é do século XIX, nasceu em 1865 e morreu em 1918. Ele fez o trajeto do sertão para a cidade e, com isso, fez com que o diálogo entre estes dois meios se efetivasse. O mundo tradicional do sertão e a visão contemporânea que a vida na cidade impunha. Em 1910, por exemplo, ele escreveu sobre a passagem do cometa Halley e também falou sobre as profecias catastróficas que toda passagem do cometa traz embutida.

Não tem nada mais universal que o cordel

Basicamente minha formação é essa, foi a partir daí que eu acabei adentrando por este universo do cordel que, por mais que algumas mentes acabem o identificando com o regional, eu afirma o oposto: não tem nada mais universal que o cordel. Enquanto determinado campo do romance nacional se detém naquilo que foi definido como regionalismo, o cordel trata de assuntos dos mais universais possíveis, que vão desde histórias situadas em lugares como França, Espanha, Japão e Egito até aquelas que a imaginação do poeta cria. É um campo vasto e, como te afiancei, o cordel tem um caráter universal, desenvolve-se num lugar antropofagicamente, capta histórias de cunho tradicional e dá um sotaque local. Acho que essa universalidade dele hoje é inquestionável.

A questão do diálogo da tradição com o contemporâneo é a face mais visível do cordel.
A: E como você começou a escrever? Quando foi? Quantos anos você tinha?

MH: Tinha entre seis e sete anos. Tenho aqui alguns cadernos desse início. Eu fazia a produção integral não só do texto, mas também da capa e já utilizava o acróstico. Este aqui, por exemplo, é um trabalho insipiente, no qual o diabo é o personagem principal. O diabo é onipresente no cordel e, o interessante é que depois de muitos anos acabei escrevendo outros cordéis em que o diabo está já no título: A Idade do Diabo, A briga do Major Ramiro com o Diabo, o major Ramiro é meu bisavô, e A chegada do Diabo no Big Brother. Este último já tem um cunho mais contemporâneo, ele iria se chamar A Chegada do Diabo no Cordel do Big Brother, mas aí eu achei que era muito ofensivo ao cordel ser associado ao Big Brother e acabei mudando. É uma abordagem contemporânea, mas escrito numa linguagem que dialoga com o tradicional. A questão do diálogo da tradição com o contemporâneo é a face mais visível do cordel. Ela é tão visível que alguns estudiosos por ópio acabam não percebendo.

Cordel feito por Marco Haurélio quando criança
Particularidade

.A: Qual é a característica mais importante da sua poesia?

MH: No cordel, cada autor tem uma particularidade. A minha é mais o trabalho de pesquisa. Além disso, talvez eu seja, no âmbito do cordel atual, o mais conservador no sentido de tentar manter o texto o mais próximo possível da linha consolidada pelos pioneiros. Trabalho sempre com a ponte entre a tradição e a contemporaneidade. Meus títulos têm esse viés, com temáticas como a bravura, o sofrimento e o encantamento. Este aqui [mostra com as mãos] é um conto das Mil e Uma Noites, este outro cordel é baseado num conto dos Irmãos Grimm, e este é um conto de Silvio Romero. É esse tipo de coisa que define cada poeta na busca de se auto-afirmar, de definir uma identidade, uma linha.

 A poesia acaba sendo resultado de vozes das mais diversas épocas e locais. Acho que aí é que está a magia do cordel e acho que foi isso que me pegou.
A: E o que te inspira a fazer cordel? O que te move a isso?

MH: É o gostar. Mesmo escrevendo em outros gêneros da poesia e também em prosa, eu dou preferência ao cordel. Acho que quando escrevo cordel, eu me aproximo de uma poesia que não tem época. Quando olhamos para a Ilíada: “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta, que causou inúmeras dores aos aqueus” e trazemos isso para a contemporaneidade, temos aí a invocação de uma musa, que é um elemento muito presente também no cordel. O mesmo faz Severino Borges na História de João de Calais, que diz mais ou menos assim: “Vinde musa mensageira das regiões divinais, banhar-me nas santas águas das fontes celestiais que vou contar o romance do herói João de Calais”. Todos acabam seguindo uma mesma idéia universal, porque a poesia acaba sendo resultado de vozes das mais diversas épocas e locais. Acho que aí é que está a magia do cordel e acho que foi isso que me pegou. Ele é uma forma de estar antenado com as tradições mais remotas, mas, ao mesmo tempo, com a época em que vivo, trazendo todo esse arsenal tradicional para tratar de temas da atualidade.

A: Você é apaixonado pelo cordel?

MH: A relação que a gente tem é de afetividade mesmo. Conheço a poesia desde os poetas clássicos até os de vanguarda, principalmente os do romantismo, pelos quais tenho uma afeição muito grande. A gente costuma achar que só no século XX houve, com os beatniks, uma revolta institucionalizada, mas esses poetas românticos que viveram no século XIX, num país atrasado, escravocrata, iam às praças públicas para declamar seus poemas abolicionistas. Castro Alves, por exemplo, tem algumas coisas muito ricas e que remetem muito às coisas do sertão e, ao mesmo tempo, ele tem uma linguagem que delineia uma ruptura com o romantismo por escrever poemas mais calcados em problemas sociais. Acho isso muito bom, porque ele também faz um retrato dos costumes sertanejos e das superstições presentes. O cordel faz isso também, ele dialoga com outras vertentes da poesia mantendo a sua identidade, sua marca que é indiscutível e inconfundível. É fascinante.

Influências

.A: O Castro Alves é um poeta que te influenciou?

MH: Sim, muito. Inclusive no livro O Cordel, sua história, seus valores eu coloco assim “Já no século XIX, no Brasil Imperial, resistia à escravidão, um desnecessário mal, esse regime abjeto na pena teve um rival. Foi o bardo Castro Alves, grande poeta baiano que na arte que abraçou no Brasil é soberano. Lutando contra a injustiça, no verso se fez arcano.”.

A: Quais foram os poetas que te influenciaram?

MH: Eu gosto bastante do Castro Alves, Gonçalves Dias, Fernando Pessoa que é soberbo, Mário de Sá Carneiro, Bocage, que muita gente associa às anedotas. Me inspiro também em Victor Hugo, Goethe, Tobias Barreto, que tem um poema chamado O Gênio da Humanidade, que é deslumbrante. Tem também os mais recentes, com o João Cabral de Melo Neto. E, além dos os autores de cordel que citei, tem o Delarme Monteiro, que considero um poeta extraordinário no campo do cordel. A gente busca um repertório de informações que seja o mais diverso possível. Acho que no meu cordel esse repertório também está presente, só que de forma sutil. As pessoas não precisam percebam isso, mas acho que a gente tem que ter esse suporte, tem que ter esses elementos que conferem o caráter de universalidade ao cordel.

Publicação de livros

Apesar de eu gostar muito do formato do folheto de cordel, como ele não agrega o direito autoral, a gente expõe e vende mais por gostar da tradição. Já o livro impresso acaba entrando em programas de governo, já tive, por exemplo, a minha versão de A Megera Domada em cordel vendida no PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), que foi publicada pela Editora Nova Alexandria – onde eu trabalhava até um mês e pouco –, o Contos Folclóricos Brasileiros também entrou ano passado no programa e tenho outros livros em programas também de São Paulo, como o Apoio ao Saber.

Esse foi um poema que fiz para contestar qualquer tipo de lógica estabelecida na poesia.

Eu acabei reunindo a maior parte dos meus cordéis num livro chamado Meus Romances de Cordel que saiu pela Global Editora. Ele foi uma tentativa de homenagear os meus 20 anos de caminhada na poesia porque ele tem O Herói da Montanha Negra, que é de 87, até o Galopando Cavalo Pensamento de 2007. Diferentemente de todos os outros, este cordel de 2007 é um texto escrito no estilo do martelo agalopado. Ele mistura muitas referências, sem obedecer a uma lógica. Simplesmente algumas imagens vão aparecendo, mas elas não são gratuitas. Quando digo: “No vermelho da juba do cometa relembrando Maria Antonieta”, a cena que imagino é de um cometa com sua juba luminosa e a Maria Antonieta com a cabeça decepada pela guilhotina e deixando um rastro como se fosse um fogo. É uma coisa meio de sonho. Esse foi um poema que fiz para contestar qualquer tipo de lógica estabelecida na poesia. O próprio cordel acaba sendo contestado porque ele sempre obedece a uma lógica e a parâmetros muito óbvios dos quais não se pode fugir.

Trabalho em editora

.A: Como foi seu trabalho na Editora Nova Alexandria?

MH: Entrei em 2007, foi uma experiência muito boa. Eu coordenava de fora da editora a coleção Clássicos em Cordel e, o Nelson dos Reis, que era o proprietário, me chamou para ser editor assistente. Um tempo depois acabei assumindo a posição de editor, até pelo falecimento do Nelson. Foi um trabalho muito bom, mas eu já não conseguia conciliá-lo com as minhas atividades. Às vezes tenho a necessidade de fazer uma viagem para uma palestra, em São Paulo mesmo ou em outro lugar. Foi uma decisão difícil, mas necessária.

Novos projetos

.A: Você está com quais projetos agora?

MH: Estou escrevendo agora uma versão do Beowulf, a saga escandinava, ontem sentei no computador e a história saiu todinha. Estou com alguns projetos a caminho, estou fazendo uma versão da Lucíola, de José de Alencar, para um projeto do Ceará, que vai homenagear o escritor com alguns poetas e poetizas. A Lucíola é interessante porque é uma mulher que hoje chamariam de a frente de seu tempo. Ela é jogada ao mundo da prostituição pela necessidade, e, contraditoriamente, acaba se tornando uma madona. No cordel, tratar dessas sutilezas é difícil. Estou muito feliz por ter a oportunidade de tratar de um tema complexo que nem todas as pessoas, principalmente nesse meio, gostam de falar. São esses os trabalhos que estou fazendo no momento.

É uma história tão rica e pela qual tenho tanto respeito que às vezes dá medo.
A: E você senta e a história vem? Você escreve um cordel em uma tarde?

MH: Esse aqui [mostra com as mãos], O Belisfronte, eu fiz em um dia, tem 160 estrofes. O romance original do O Conde de Monte Cristo, do Dumas, é muito extenso e, quando comecei a escrever pensei: “Meu Deus, como é que eu vou dar conta de resumir isso aqui num cordel?”. Transpor essa história para o universo do cordel, da rima, da métrica e ao mesmo tempo com desafio de condensar tudo aquilo, mas de forma a não perder as nuances, é bastante difícil. Até porque é uma história tão rica e pela qual tenho tanto respeito que às vezes dá medo, porque é um respeito quase religioso. Aí eu li uma versão, depois outra versão, li uma versão mais resumida, assisti os filmes, dos quais eu não gosto, e consegui eliminar as histórias mais acessórias do livro.

Cordel com ilustração que Marco Haurélio fez quando criança
Ilustrações

.A: Você desenhava as capas dos seus cordéis quando criança, você tem ainda vontade de desenhar a capa dos seus livros?

MH: Tenho algumas capas que eu que desenhei. Por exemplo, fiz a capa do cordel A Briga do Major Ramiro com o Diabo que é sobre uma história do meu bisavô, o Major Ramiro. Eu mesmo que desenhei a capa porque nas capas que fizeram meu bisavô não parecia com como ele era. Ele tinha um bigodão, cabelo curto, aí colocaram um coronel com chapéu, parecendo um holandês da época da invasão. Desenhei essa capa e algumas outras. Fiz também uma capa para um cordel – Chicó, o menino das Cem Mentiras – de um amigo meu, o poeta Pedro Monteiro.

Mulheres no cordel

.A: A maioria dos poetas de cordel é do sexo masculino. O que você acha da presença das mulheres no cordel?

MH: Felizmente as mulheres também têm uma inserção muito boa no cordel que começou, como toda a literatura, quase que exclusivamente masculina. Graças a Deus hoje a gente tem múltiplas visões, um leque bem amplo no qual as mulheres estão enquadradas.

A: Sobre as mulheres que fazem cordel, teria alguma em especial que você goste do trabalho?

MH: Tem mais de uma. A Josenir Lacerda faz um trabalho muito bom. A Nezite Alencar, que tem livros publicados pela Editora Paulus com histórias temáticas sobre Canudos e sobre a Inconfidência Mineira, também é interessante. De São Paulo, tem a Cleusa Santo, que faz um trabalho no Tendal da Lapa, e tem a Benedita Delazari.

São Paulo

.A: Por que você saiu da Bahia para morar em São Paulo?

MH: Eu estive aqui na década de 90 com a intenção de tentar publicar alguma coisa que eu tivesse escrito, mas, infelizmente, não tinha experiência nisso. Fiquei de 97 a 99 e, como era de se esperar, não consegui nada. Retornei a Bahia, coordenei o Senso em 2000 da cidade Serra do Ramalho, localizada nas margens do Rio São Francisco, onde meus pais residem hoje. Depois, fui cursar Letras na Universidade Estadual da Bahia em Caetité. Fiz o vestibular um pouco tardio, concluí o ensino médio em 1992 e fui estudar só em 2001.

Marco Haurélio segura cordel de autoria própria
Pesquisa e a trilha para São Paulo

Quando terminei o curso, tinha a intenção de continuar a vida acadêmica e fazer uma pesquisa sobre o conto tradicional. Comecei a pesquisar as muitas versões desses contos e descobri que tem cordéis com histórias e elementos muito semelhantes. Durante a pesquisa, fui a muitos sebos em busca de material, e, nesta trajetória, resolvi passar no sebo da Editora Luzeiro, em São Paulo, em busca de mais livros para complementar a fundamentação teórica do projeto. O que eu não sabia era que o sebo funcionava no mesmo endereço da Luzeiro, que ficava no Brás. Quando vi estava na Luzeiro e o Gregório [Nicoló], o dono, me chamou para vir para São Paulo para ajudá-lo a tocar a linha editorial da Luzeiro, fiz isso no final de 2005. Nesse período, publiquei alguns cordéis no formato pequeno, comecei a trabalhar na Luzeiro e a fazer algumas oficinas e atividades com a temática do cordel, mas isso ainda era insuficiente para me manter na cidade. Fui chamado para trabalhar na Nova Alexandria, primeiramente fiquei na coordenação da coleção Clássicos em Cordel para a qual escrevi uma versão de A Megera Domada, de Shakespeare. Foi muito bacana publicar esse livro, porque ele foi levado ao teatro por uma trupe que fez uma adaptação com um quê de comédia e de folguedos nordestinos. Depois publiquei também o O Conde de Monte Cristo e fui ficando na editora. Nesse momento, a editora Paulus quis publicar um cordel meu e, aí, fiz um bem infantil que é A lenda do Saci-Pererê em cordel, que acabou virando um desenho animado num programa chamado Livros Animados, do Canal Futura.

Isso fez com que certo preconceito que havia em uma parte da elite em relação ao cordel caísse por terra.

Acho que hoje a gente conseguiu desbravar o mercado, por a gente falo de um monte de gente que trabalhou para que o cordel fosse aceito em outros meios além do tradicional. Isso fez com que certo preconceito que havia em uma parte da elite em relação ao cordel caísse por terra. Havia até alguns pesquisadores de cordel que acabavam associando o cordel à forma com que o texto é impresso, quando, na verdade, o cordel pode aparecer em diversos formatos. Inventou-se por muito tempo que o cordel tradicional é o folheto com capa com xilogravura ou zincogravura, quando isso é mais um suporte e uma forma de se ilustrar o cordel.

São Paulo é realmente um celeiro para quem trabalha com a arte, seja ela da palavra, da voz, do pincel.
A: E o que você acha de São Paulo?

MH: Tenho muita gratidão por São Paulo. Preocupa-me muito um pensamento reacionário presente em boa parte da população, mas, por outro lado, acho que a gente dificilmente teria as oportunidades que a gente tem aqui em outros lugares. São Paulo é realmente um celeiro para quem trabalha com a arte, seja ela da palavra, da voz, do pincel. É um lugar cosmopolita que está perdendo esse caráter de Eldorado, embora isso esteja presente no imaginário das pessoas. É uma cidade a qual sou muito grato, a qual devo muito.

A: E o que você acha do cordel em São Paulo?

MH: Acho que no Nordeste eu não teria as oportunidades que tive em São Paulo. Acho que o cordel é uma coisa muito presente aqui, muito rica e antiga, porque o cordel chegou a São Paulo com Antonio Teodoro dos Santos, na década de 50. A maior editora tradicional de cordel no Brasil é a Luzeiro, localizada em São Paulo. A gente tem que entender que o homem, quando se desloca, também leva sua cultura. Eu, por exemplo, trouxe a carga da poesia dita popular e não tirei essa roupa porque vim para cá. Acho que vim justamente por conta disso, porque aqui minha voz podia ser ouvida com muito mais força do que no Nordeste, por incrível que isso possa parecer à primeira vista.

 O JotaBarros é mais tradicional e o Maxado fazia um cordel com uma linguagem mais urbana.

Aqui em São Paulo tinha um poeta baiano chamado Franklin Maxado, que hoje está em Feira de Santana. Conheço o Maxado e gosto muito dele. É advogado, exerceu jornalismo por algum tempo e até trabalhou aqui na Folha de S. Paulo, mas é uma pessoa idealista. Foi para a Praça da República e montou uma banca lá, foi uma coisa de doido, de alguém que vai contra a ordem estabelecida. Ele entrava em discussão com o poeta JotaBarros, que é o João Antonio Barros falecido há uns dois anos. O JotaBarros é mais tradicional e o Maxado fazia um cordel com uma linguagem mais urbana. Os dois acabavam entrando em atrito porque os disputavam os clientes da Praça da República. O JotaBarros fez um cordel chamado O Doutor Faz em Cordel e o Maxado respondeu em cordel O Doutor faz em cordel o que o cordel fez em Doutor, uma brincadeira. Essas figuras são históricas na consolidação do cordel aqui. Acho que a minha geração é importante por conta da massificação. É muita gente fazendo cordel e o levando para a literatura infantil, juvenil e até mesmo para as mitologias.

Na luta

.A: O cordel precisa conquistar ainda muitas coisas?

MH: Conquistou-se muita coisa, mas eu acho que tem muito ainda. Teve uma novela da Globo, Cordel Encantado que, embora carregasse o estereótipo do falso pitoresco que a gente combate e pasteurizasse o sotaque nordestino, acho que pelo menos instigou a população a tentar conhecer mais, tentar saber mais. No desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro deste ano, uma das escolas trouxe o cordel como tema. Mas é sempre uma faca de dois gumes porque essa apropriação pode ajudar na divulgação ou ajudar a transformar o cordel num pastiche de si mesmo, o que é muito complicado. Mas nós temos o Glauber Rocha, que colocou os versos de A Chegada de Lampião ao Inferno em um dos seus filmes, e também O Auto da Compadecida, que migra do cordel para o teatro e do teatro para o cinema.

Cordéis antigos de Marco Haurélio e alguma obras publicadas
O cordel e seus formatos

.A: O que é o cordel para você?

MH: O texto. O que define qualquer gênero da literatura é o texto. A forma com que ele vem impresso ou embrulhado é o de menos. Se você jogar na internet um texto que mantém as características básicas do cordel, ele não vai deixar de ser cordel por estar no tablet. Não dá para algemar o cordel ao passado. Ele se renova constantemente, sempre vinculado à oralidade. Hoje já não existe mais a obrigação de manter o cordel impresso nesse tamanho e formato [mostra folheto com as mãos], então a história contada pode terminar na página 13, não na 16 como antigamente.

No cordel é a necessidade que determina que ele tenha 8, 16, 24, 32 e até 64 páginas. Quando um cordel tem 200 e tantas estrofes, ele às vezes é feito em dois volumes. Então, temos o Verdadeiro Romance do Herói João de Calais que teve sequência em O Filho do Herói João de Calais e A Louca do Jardim que deu origem a A Filha da Louca do Jardim. O romance de cavalaria também tinha isso, parecia que ele dava cria, um fazia com que outro surgisse. O cordel não foge deste mundo de edição de livros no qual existem trilogias ou sete livros de uma mesma história. O mesmo acontece no cinema, porque se uma produção faz sucesso, sendo de qualidade ou não, normalmente tem uma continuação, ela acaba gerando filhos.

Música

.A: Você fez algumas músicas com o Costa Senna. Como foi essa parceria?

MH: De música eu entendo bem pouco, a letra da música Proibido Permitir acabei fazendo com o Senna a partir do martelo agalopado, que são dez versos de dez sílabas poéticas. A canção foi inspirada na música Proibido Proibir, do Caetano Veloso, que ao mesmo tempo que criticava o Estado de exceção, também criticava determinadas posturas de esquerda que tentavam cercear também a criação dos tropicalistas. Então, o Senna veio com a idéia de que nós chegamos a um ponto hoje em dia em que o “pode se fazer tudo” pode gerar interpretações muito perigosas, então ele sugeriu que a gente fizesse uma música chamada Proibido Permitir. Achei complicado porque poderia parecer uma letra conservadora, mas deu certo. A gente acabou fazendo uma abordagem que a princípio choca, mas depois mostra a que veio: “É proibido permitir que os grileiros ergam cercas de ódio e intolerância e que os anos dourados da infância se maculem nos becos traiçoeiros, que o sangue dos bravos guerrilheiros tenha sido por nada derramado, que o pobre prossiga manobrado sem direito a uma identidade, que a mentira derrote a verdade e a fé seja artigo de mercado”.

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