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Nando Poeta

O poeta de cordel, sociólogo e militante do PSTU, Nando Poeta, estabelece as relações entre arte e política, descreve os impasses de envolvimento político dos cordelistas, conta sua história e mostra que não há divisão entre o erudito e o popular.

A: Queria que você contasse um pouco de onde você nasceu, como foi sua infância e desde quando você tem interesse pelo cordel, desde quando ele te encantou?

NP: Nasci em Natal, capital do Rio Grande do Norte, no dia 5 de novembro de 1962, sou de escorpião. Meus pais são paraibanos, sempre tive um contato muito forte com o cordel por causa deles. Na casa da minha mãe em João Pessoa, a família se reunia no final do dia, fazia uma roda para a leitura dos cordéis. Minha mãe sempre alimentou essa relação com o cordel. Além disso, morei num lugar chamado Alecrim, um bairro bem popular de Natal, e, nesse bairro, eu ia no mercado e na feira e via muito os cantadores e os folhetos sendo vendidos. Quando cresci, conheci outros movimentos poéticos e comecei a participar deles. Inclusive, em 1984, na universidade, teve uma ocupação da reitoria e, durante a ocupação, tinha um colega meu de Letras que escrevia cordel sobre o movimento.

Produzia poesias e livros, mas não estava disposto a fazer uma coisa dentro das regras do cordel.

.A: E você acha que o seu envolvimento com o cordel cresceu junto com o seu envolvimento com a política?

NP: Eu vivenciei tudo isso junto na efervescência dos movimentos de 1984 e na campanha de 82 do PT, da qual participaram violeiros e cordelistas. Gostava de ler, guardava minha coleção de cordéis, mas até então eu me recusava a escrever cordel. Produzia poesias e livros, mas não estava disposto a fazer uma coisa dentro das regras do cordel. Sempre fui aberto a utilizar o gênero literário do cordel nos movimentos sociais nos quais me envolvi, acho que é uma forma de aproximar as pessoas e mostrar a elas o que está acontecendo.

“Esse pessoal é meio porra louca, muito radical”

.A: Quando foi que você começou a se envolver com política e com o PT?

NP: Minha inclinação para a política começou na adolescência. Em 1979, entrei na escola técnica CEFET, onde havia um debate político muito forte, e estava tão influenciado com as greves dos metalúrgicos que via no Jornal Nacional que escolhi fazer o curso técnico de metalurgia. Não sabia o que estava fazendo, em Natal nem tinha metalúrgica.

Na mesma época, uma irmã minha se envolveu com o movimento estudantil na universidade, que estava reconstruindo a UNE (União Nacional de Estudantes). Em 80, minha irmã começou a participar do movimento do PT, e meu pai, preocupado com ela, pedia pra eu acompanha-la nas reuniões pra ela não ficar sozinha. Eu ia, mas tinha que ficar do lado de fora das reuniões, porque não me chamavam pra participar. Curioso, ficava na janela ouvindo tudo. Em 81, participei de uma campanha com uma chapa de um pessoal do PT para Centro Cívico, que era como se chamava o grêmio controlado pelas escolas durante a ditadura. Nesse período, conheci um grupo de jovens militantes. Na época, as organizações políticas não revelavam pra todo mundo o que eram por causa da repressão, só que esse grupo começou a me falar sobre uma corrente política chamada Convergência Socialista. Os colegas da minha irmã diziam: “Esse pessoal é meio porra louca, muito radical”, mas resolvi conhecer a corrente mesmo assim. Foi aí que aprendi o que era o trotskismo. Li muito sobre o assunto e mergulhei de forma organizada na corrente.

A: Era uma corrente do PT? NP: Era, foi uma das primeiras correntes do PT. Achei legal essa questão das reivindicações e das lutas sociais e resolvi estudar Ciências Sociais. Entrei na Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 1983 e me foquei na militância, no estudo, nos congressos e nas questões culturais da militância.

Monitoraram toda minha participação política.

.A: Nessa época você sentiu repressão da ditadura?

NP: Sim, nós fomos perseguidos. Estamos entrando agora com uma ação contra o Estado. Recebi, recentemente, uma ficha da época da ditadura sobre a minha militância. Monitoraram toda minha participação política. Agora a Comissão da Verdade está entrando com uma ação de reparação de todos os presos políticos e de todos os perseguidos também, estou incluso entre os perseguidos. Esse monitoramento me trouxe prejuízos. Por exemplo, na própria escola técnica, isso me impediu de assumir os melhores estágios. A perseguição era forte.

A gente organizava os trabalhadores, organizava as lutas.

.A: E depois que você se formou, o que foi fazer?

NP: Ainda na universidade, em 84, comecei a ensinar enquanto aluno, porque quando faltavam professores, eles contratavam alunos. Depois, fui trabalhar na Secretaria da Educação como sociólogo. Em seguida, fui para o sindicato, onde tive três mandatos e atuei até 1997. Fui diretor de políticas sociais e tesoureiro, a gente organizava os trabalhadores, organizava as lutas.

O Brasil todo vai parar pra acabar com a ditadura militar

.A: E você participou das Diretas Já?

NP: Foi uma das primeiras campanhas de rua de massa da qual participei. A gente se envolveu muito e, na época, a poesia falava muito forte. Me lembro de uma marchinha que fizeram e que a gente cantava na rua “Tá com medo, seu João? Chegou a hora da eleição. Tá com medo, seu João? chegou a hora da eleição. A gente pede, ele não dá, tudo bem, deixa pra lá. Como é que vai ficar? Em abril, o Brasil todo vai parar pra acabar com a ditadura militar”.

A: Por que você saiu do PT?

NP: Saí porque, quando a gente construiu o PT, ele concebia que era importante ser um partido de trabalhadores, mas o PT, a partir de 88, começou a tomar um rumo cada vez mais distante do seu programa original. A gente era contrário a isso, achávamos que o PT deveria conduzir a sociedade para uma transformação a partir do fortalecimento dos seus princípios iniciais.

No congresso de 1991, o PT votou contra a campanha do Fora Collor, porque achava que era errado tirar um presidente eleito. O partido só foi reconhecer a campanha meses depois. A nossa corrente foi expulsa em maio de 1992 porque não seguiu as orientações tiradas no congresso de 91, nós estimulamos o Fora Collor.

A: A construção do PSTU, seu partido atual, começou em 1992. Você participou da construção do partido? Como foi isso?

NP: Sim. Em 92, começamos um processo de construção de uma nova corrente chamada Frente Revolucionária. O PSTU foi fundado em 1994 a partir dela e de outros correntes que se juntaram a nós. Fui da primeira direção, saí na segunda, depois voltei e participei até a última direção nacional do partido. Era dirigente político do partido e responsável pela região de Natal.

A arte teve uma influência muito forte na política.

.A: E como você vê a relação entre arte e política pra você? Como você acha que a arte pode influenciar no debate político?

NP: Na época da ditadura e durante a redemocratização do país, a arte teve uma influência muito forte na política. Só que, depois disso, houve um afastamento dos artistas, o engajamento diminuiu e muitos se voltaram para seus trabalhos artísticos individuais. O mercado começou a estimular a produção artística, mas sem querer que os artistas tivessem um engajamento. Os movimentos artísticos que surgiram e mantiveram o questionamento político eram muito marginais e não tinham espaço na mídia, como o movimento do funk e do rap. Depois, a burguesia absorveu tudo isso. Mesmo dentro do mundo do cordel, são poucos que têm um posicionamento mais político.

Sempre existiu um setor de vanguarda no cordel.

O cordel é um movimento meio contraditório: num período houve um atrelamento com os coronéis e se fazia cordel para falar bem da ditadura. Sempre teve um setor mais reacionário. Mas também sempre existiu um setor de vanguarda, por exemplo com o Leandro Gomes de Barros. No final de 70, o Lula cansou de levar violeiros e cordelistas ao ABC, para cantar na porta das fábricas. Hoje em dia, nós estamos vivendo um momento em que a maioria dos cordelistas quer produzir seus trabalhos nas editoras e elas geralmente silenciam os protestos em versos. Há poetas que são mais engajados e têm também os que são mais portas fechadas. Quem tá de fora pensa que tá tudo igual, mas dentro do cordel tem essa divisão.

A maioria dos poetas de cordel hoje se restringe a fazer versões de contos populares.

.A: Você poderia citar nomes de cordelistas que trabalham com uma visão mais social no cordel?

NP: O Varneci fala da questão da sexualidade, da homofobia e tem feito uns trabalhos com o sindicato. O Costa Senna lançou recentemente um livro que fala sobre questões do meio ambiente que retrata um pouco a realidade social. Recentemente fiz um cordel com o Varneci para a professora Amanda Gurgel, que estourou. Também fiz um trabalho com o Cacá Lopes sobre bullyng. Hoje o Varneci é um parceiro que me acompanha sempre, apesar de ele não ter uma vinculação partidária. Há muito tempo ele participou do PT, mas ele tem um viés de movimento social.

Há muitos outros cordelistas pelo mundo a fora que fazem esse tipo de trabalho, como o Antônio Francisco que também tem um trabalho ligado a questões do meio ambiente. Apesar disso, a grande maioria dos poetas hoje se restringe a fazer versões de contos populares e acaba se limitando muito a isso.

A arte tem que ser independente.
A: Você vê o cordel como uma forma de militância?

NP: Acho que a arte é um instrumento que possibilita desalienar as pessoas, como a militância política também possibilita. Os revolucionários sempre tiveram uma preocupação com a arte. O Marx, o Trotsky, o Lênin falam sobre cultura e arte. Trotsky tem um manifesto que diz que o que o Estado tem que fazer em relação a arte: garantir a produção da arte sem interferir no seu conteúdo. Ou seja, a arte tem que ser independente. É essa condição em que ela deve existir. O artista tem que estar livre para produzir suas ideias.

A militância me chamou para São Paulo há cinco anos.
A: Por que você veio para São Paulo?

NP: A militância me chamou para São Paulo há cinco anos. Minha companheira, mãe dos meus filhos, com quem estou junto há 25 anos, veio uns dias depois e os meus três filhos vieram nos anos seguintes. Vim para cá para ser educador de um instituto de formação política que organiza cursos para os movimentos sociais do país inteiro, estou sempre viajando. Além disso, tenho meu trabalho poético do cordel e também dou aula numa escola do Estado.

Senti que os movimentos sociais estavam muito distantes da poesia.
A: Por que você começou a fazer cordel?

NP: Em Natal, como dirigente do sindicato, eu tinha um contato forte com a Casa do Cordel, fazia alguns trabalhos com eles. Chegando aqui em São Paulo, senti que os movimentos sociais estavam muito distantes da poesia. Por isso, procurei a Editora Luzeiro e conheci o Varneci [que trabalha na Luzeiro como editor]. Nisso, contei a ele que estava pensando em escrever um poema sobre a turbulência econômica de 2008 em forma de cordel. Ele me pediu pra eu mostrar o que eu fosse escrever, recebi orientação dele e, no final, publiquei o cordel pela Luzeiro.

Depois do primeiro lançamento, me deu uma febre. No início de 2009, lancei a primeira edição de “Mulheres em Luta”, em maio, veio o “Primeiro de Maio”. Fiz um lançamento para cada um desses cordéis e, com isso, conheci cordelistas que tinham a ideia de construir um movimento, me somei ao grupo e a gente fundou a Caravana do Cordel.

A: E daí você começou a escrever muito cordel?

NP: É, desenvolvi vários textos. No blog tem vários textos que não foram lançados em folheto. Não é todo texto que a editora tem interesse em lançar. Mesmo a Luzeiro não tem interesse por alguns textos, principalmente os mais políticos, como o que eu fiz sobre a obra “Capital” de Marx. Mas a Luzeiro está organizando uma antologia com vários textos e tem um meu sobre meio ambiente Agora estou preparando uns textos sobre o cangaço, fazendo uma versão mais histórica desse processo, de como ele se inicia e de como, ao longo do tempo, ele foi se transformando.

Hoje a Caravana está numa encruzilhada
A: E o que você acha hoje da Caravana do Cordel?

NP: Foi uma iniciativa muito interessante, possibilitou que a gente trabalhasse enquanto movimento artístico. As primeiras reuniões foram feitas em casa. Hoje a Caravana está numa encruzilhada porque a gente pensou o grupo como um movimento que faria espetáculos, apresentações, shows e também teria a preocupação de fazer debates sobre o cordel, para estudar, refletir e pesquisar, mas as pessoas que participam do coletivo se firmaram em outros projetos, em iniciativas indivuduais, e, com isso, a Caravana foi se esvaziando. Mesmo assim, a ideia da Caravana é tão forte que, mesmo o grupo se encontrando pouco, ela se mantém e todo mundo veste a camisa dela. Hoje, nós estamos repensando os nossos momentos de estudo, de discussão e de oficinas.

O cordel deu um salto.
A: E o que você acha do cordel feito aqui em São Paulo?

NP: Hoje o maior estado do nordeste é São Paulo, com a presença massiva de nordestinos que se encontram aqui e que trouxeram o cordel para cá. Antes, havia trabalhos individualizados, cada um atirava para um lado, mas, nesses últimos três, quatro anos, a Caravana aglutinou essas iniciativas e deu força ao cordel. O cordel deu um salto. A produção cresceu e outros poetas surgiram. Além dos nordestinos residentes aqui que começaram a escrever cordel, outros poetas daqui de São Paulo apareceram.

 Não existe essa separação de erudito e popular.
A: O que você acha da questão do popular no cordel?

NP: Muitos de nossos colegas cordelistas insistem em dizer “literatura de cordel”, sendo que o cordel é um gênero da literatura brasileira, então não tem para que essa redundância de “literatura de cordel”. Também não tem para que caracterizar o cordel como popular. Quando rotularam o cordel de popular foi para segregar: para excluir a coisa que é considerada erudita da coisa que é popularmente falada. Há essa denominação de cultura popular, que indica que foi produzido pelo povo, mas tudo foi produzido pelo povo. Se você olhar a história do samba, do blues e do jazz, todos esses movimentos, de uma forma geral, foram criados por comunidades carentes. Não existe essa separação de erudito e popular.

Os poetas vivem só o cordel.

No mundo do cordel, geralmente, os poetas vivem só o cordel, não vão para um sarau para ouvir outros tipos de poesias. Os cordelistas têm que quebrar essas fronteiras e dialogar com outros movimentos. Varneci e eu tivemos um bate-papo com um grupo de rap, conversamos sobre a produção deles e sobre a nossa, sobre a diferença que um gênero tem com o outro, sobre a importância de dialogar essas artes, etc. O rap e o cordel são galhos de uma mesma árvore, mas o rap ele não segue uma regra de cordel. Ele é mais livre. Tenho que começar a abrir os meus horizontes para que meu trabalho de cordel esteja em outro patamar.

As editoras publicam cordel para transformá-lo em mercadoria.
A: Sinto que alguns poetas militam para que o cordel entre mais nas grandes editoras, para ser reconhecido e entrar no mercado editorial. Você acha que, com isso, o cordel pode entrar numa engrenagem de cultura de massa e perder parte do seu caráter?

NP: Isso já acontece. Muitos textos que são aceitos pelas editoras são moldados para aquela editora. As editoras publicam cordel para transformá-lo em mercadoria. Elas viram que hoje há mais público para essa arte que antes só os setores mais humildes da população consumiam. Historicamente, o cordel sempre se preocupou em produzir os folhetos, era uma forma mais acessível para a população do que o livro. Se o folheto custa só três reais, as editoras chegam a fazer um livro de cordel de trinta reais.

“Todo artista tem que ir aonde o povo está”

Hoje tem muitos cordelistas que não se dispõem a apresentar seu trabalho na rua. Como diz a música do Milton Nascimento “Todo artista tem que ir aonde o povo está”. Acho que esse contato com a rua é um elemento fundamental no cordel, é sua marca. Nós tentamos ir pra rua, já fomos lá para a Aldeia da Poesia. Agora vai ter outro evento no Anhangabaú, o pessoal está montando uma tenda, da qual não vou poder participar porque estarei em Natal na data.

Isso é uma forma de exclusão.
A: Por mais que você ache que o cordel já foi incluído na engrenagem da cultura de massa, você acha que ele continua à margem do que é considerado como cultura no Brasil?

NP: Não, acho que ele ganhou espaço, apesar de ainda manter algumas travas. Por exemplo, há cursos de Letras que não estudam o cordel como gênero, não faz parte do programa do curso. Isso é uma forma de exclusão, que não enxerga o cordel como gênero da literatura brasileira.

A: Nas escolas isso é melhor, certo?

NP: Nas escolas tem cordel, mas os professores têm que correr atrás para ter um contato com cordel, porque eles não estudaram o tema na faculdade. A escola é um dos espaços onde o cordel em São Paulo se apoia muito, porque os profissionais que querem levar esse debate para as escolas nos chamam para atividades nas escolas. As escolas são palcos fundamentais para alimentar essa procura pelo cordel.

Acho que é uma referência para mim e para muitos outros.
A: Se você tivesse que escolher um cordelista do passado, que já morreu, qual você escolheria?

NP: Acho que uma bússola do movimento do cordel é Leandro Gomes de Barros, mas tem muitos outros autores interessantes.

A: E se você tivesse que escolher um cordelista da atualidade?

NP: Eu me espelho muito no Varneci, apesar de ser mais jovem do que eu. Foi ele quem me introduziu nessa arte poética. Acho que ele é uma referência para mim e para muitos outros.

Não guardo não.
A: E quais são seus outros projetos individuais para o futuro?

NP: Tenho muitos projetos em mente e revelo todos eles, não guardo não. Penso em fazer um cordel sobre a história do futebol para a copa e estou produzindo um sobre “A Revolução dos Bichos”, do George Orwell, o livro tem uma história legal que tem a ver com política, dominação e poder. Tenho um projeto de fazer um documentário sobre um cordel que escrevi sobre a Rua Augusta. Fiz vários outros textos, como um sobre o Sócrates, que trabalha a intervenção política dele no futebol.

Você tem que estar enamorado.
A: Você se sente apaixonado por arte?

NP: Eu me sinto. A arte tem que ter essa motivação, você tem que estar enamorado com o que você produz. Isso é muito importante para que a criação possa fluir bem.

 

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