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Pedro Monteiro

Pedro Monteiro

Com a pele queimada do sertão, olhos miúdos e o sorriso sincero como o de um menino, Pedro Monteiro é incansável. Nascido no Piauí, migrou para São Paulo antes dos 20 anos de idade em busca de trabalho, de mais oportunidades e do que faltava e gerava carência na terra natal, que ele tanto estima até hoje, aos 54 anos. O irmão já vivia na capital, então, quando pisou pela primeira vez no lugar onde um dia foi a terra da garoa, já tinha um canto para dormir.

A quantidade de carros, o fluído rápido dos trabalhadores pelas ruas, a convivência com o anonimato e a altura dos edifícios — que a cada ano se multiplicaram em progressão geométrica — assustaram Pedro no início. Ele se acostumou, mas nunca deixou de sentir saudade da vida no Piauí, com a família, o calor, o tempo desapressado e o costume de ouvir histórias, cantigas e o dedilhar da viola. Abaixo, Pedro Monteiro conta um pouco mais sobre a sua vida em entrevista realizada no dia 6 de dezembro de 2012.

A: Gostaria que você se apresentasse.

P: Sou Pedro Monteiro , piauiense de Campo Maior, vim morar em São Paulo em 1973. Chegando aqui, fui um dos muitos nordestinos que não têm um bom currículo e têm que penar, correr atrás de emprego e trabalhar muito pela sobrevivência.

Mesmo assim, nunca me desapeguei da cultura, principalmente da leitura.

Dos 17 aos 18 anos, trabalhei em São Paulo como vendedor ambulante. Ao completar 18, fui fazer um curso profissionalizante de garçom e, depois, fui trabalhar  em Campos do Jordão. Trabalhava dois horários de expediente, no período de almoço e no de jantar. A gente até ganha um dinheirinho razoável, mas não conseguia ter tempo para estudar. Mesmo assim, nunca me desapeguei da cultura, principalmente da leitura. Sempre li grandes poetas, como Manoel Bandeira, Casimiro de Abreu e Fernando Pessoa.

Cheguei em São Paulo sem um boletim escolar.
A: De onde veio esse seu interesse por poesia?

P: Fui alfabetizado em casa, só sabia quatro operações de conta, ler e escrever.
Cheguei em São Paulo sem um boletim escolar. O hábito pela leitura começou em Campo Maior por meio de livretos de cordel e por fábulas. Minha irmã era muito apegada a contos, como o A Galinha dos Ovos de Ouro, de Esopo. O gosto pela leitura foi algo que aconteceu aos poucos. Minhas principais referências na época foram os folhetos de gracejo e de drama, como por exemplo A Chegada de Lampião no Céu, A Chegada de Lampião no Inferno e também a História de Valdemar e Irene, que é um drama em cordel, e a História de Donzela Teodora, que é um cordel de astúcia, de perguntas e respostas. Hoje eu adoro esse tipo de leitura e até escrevo algumas coisas dessa mesma linha.

Em São Paulo, antes de fazer o curso técnico de administração de restaurante, percebi que tinha que estudar, precisava ter ensino médio para fazer o curso. Como tinha uma boa base, não tive problemas em fazer o supletivo e passar com larga facilidade nas matérias. Completei o segundo grau, mas isso não estimulou meu interesse pela leitura, porque eu já lia e já colecionava livros, já comprava e trocava.

Por sorteio, cai num grupo que foi incumbido de estudar literatura de cordel.

Quando trabalhei em Campos de Jordão, fui escalado como garçom para atender a família de um coordenador de cultura de um evento, que era um maestro cearense de uma cultura notável. A gente conversava muito e ele foi uma das pessoas que me incentivou bastante a ler determinados escritores, como o Miguel de Cervantes, que eu não conhecia. Foi através dele que eu passei a conhecer esses autores melhor.

Também gostava muito de teatro e, uma vez que virei frequentador de peças, comecei a ter interesse por atuar. Em um curso de direção teatral que fiz em 2008 no Centro Cultural São Paulo, a diretora pediu que fizéssemos um estudo sobre linguagem para o trabalho de conclusão do curso. E eu, por sorteio, cai num grupo que foi incumbido de estudar literatura de cordel.

“Mas que poeta desgraçado é esse que não manda nem imprimir cartão que preste?”

Pesquisei e fiquei sabendo que no Anhembi, naquele período, estava acontecendo uma feira nacional de cultura popular, na qual cada estado tinha um estande, o que mostrava a diversidade cultural do país. Quando cheguei à barraca de cordel, encontrei dois vendedores que hoje são meus amigos, o Varneci Nascimento e o Marco Haurélio, que me atenderam com muita presteza e foram muito solícitos às minhas necessidades. Por extensão, apareceu o João Gomes de Sá com chapeuzinho, capa preta e com um cartãozinho ridículo feito no computador dizendo que era poeta, e eu falei: “Mas que poeta desgraçado é esse que não manda nem imprimir cartão que preste?”. Hoje me orgulho de ter esses camaradas como amigos.

“Por que tu não associa esse conto ao Chicó?”

Conversando com o Marco Haurélio, ele me incentivou a transformar para o cordel um conto que eu tinha escrito em prosa. O conto se chamava O menino das 100 Mentiras, e, como o Marco Haurélio é pesquisador, ele percebeu que diversos fragmentos desse conto apareciam em várias outras obras da cultura popular. Então ele disse: “Por que tu não associa esse conto ao Chicó [do Auto da Compadecida]?”. Assim, nasceu o cordel Chicó, o menino das 100 mentiras, que publiquei em 2009. Foi maravilhoso.

O que eu faço é com a alma.

A partir daí, me senti inserido no mundo dos cordelistas. Não sou um autor de grande poder de criação, mas fico muito feliz de poder dar a minha contribuição poética, porque o que eu faço é com a alma. Não faço pra fazer concorrência, por status, por isso ou por aquilo, escrever é uma necessidade que eu tenho hoje. Quando penso em algo, quando tenho uma ideia e resolvo passar para o papel, isso me liberta. Se a ideia fica comigo e eu não escrevo, ela vira um incômodo.

É preciso ser mais humano para um mundo melhor.  
A: E nesse meio tempo você estava envolvido com outras questões?

P: Paralelamente a isso, fazia parte de um movimento que reivindicava junto à Secretaria de Cultura de São Paulo maiores e melhores oportunidades para os jovens, sobretudo para quem quisesse fazer iniciação artística em qualquer forma de expressão de arte. A sociedade como um todo precisa colaborar com isso, mas o Estado deve contribuir, através dos seus mecanismos de educação. A Secretaria de Cultura não deve, na minha avaliação, contratar artistas caros, com caches altíssimos, e deixar de investir nas crianças que querem desenhar, escrever, fazer pequenos grupos de teatro, pequenos movimentos de saraus, festas de reis ou qualquer outro tipo de manifestação cultural.

Não podemos cair no modismo e esquecer das tradições. É claro que não podemos ficar presos às tradições, temos que ser criativos. É preciso haver equilíbrio entre uma coisa e outra. Há uma grande faixa da juventude que é tragada por influências de gostos duvidosos. No cordel mesmo, há pessoas que dizem que escrevem cordel, mas escrevem só porcaria. É necessário que as editoras que publicam cordel tenham critérios para dizer o que é e o que não é cordel. Não dá para fazer besteiras, coisas preconceituosas e que não acrescente nada ao caráter. É preciso ser mais humano para um mundo melhor.

Continuo achando que a ideia de esquerda é a boa ideia.
A: Você militou por algum partido?

P: Sim, fui membro do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores, fui um dos criadores.

A: E depois você saiu do PT?

P: Eu me desfiliei, mas eu continuo achando que a ideia de esquerda é a boa ideia. Mas me desfiliei em protesto a algumas atitudes que foram adotadas pela direção.

A: Que ano você se desfiliou?

P: Me desfiliei quando o Lula deixou de demitir o Zé Dirceu, naquele episódio. Eu acho que ele deveria ter demitido. Aquele escândalo precisava ser apurado devidamente.

Se cordel é uma literatura, ele é universal.
A: Você começou a escrever cordel em 2008 e, no mesmo momento, você ajudou a fundar a Caravana do Cordel?
P: A Caravana é um negócio interessante. Ela nasceu de uma conversa como a que nós estamos tendo aqui. O que queremos para São Paulo, uma cidade com tantos cordelistas? Por que não criar um movimento que possa dar visibilidade e estimular as pessoas a escrever e a publicar? Para nós, com esse movimento, essa forma de escrita que é o cordel viraria mais presente na literatura como um todo.

Eu me recuso a acreditar, como alguns dizem, que cordel é uma coisa só do sertão nordestino, que não vai para outros lugares, ou que é feito só por poetas semianalfabetos e blá blá blá. Não é nada disso, se cordel é uma literatura, ele é universal. Claro, há os catalogadores, há aqueles que incentivaram as publicações e que formataram a rima nos lugares pares das sextilhas, Leandro Gomes de Barros é um destes e, pelo o que se sabe, foi uma pessoa notável. Mas a poesia é universal, as sextilhas de Casimiro de Abreu, que nasceu em 1837 e faleceu em 1861, portanto com 23 anos, são maravilhosas. Ele tem uma obra notável:

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena – não tens rival! (…)

Casimiro tem versos maravilhosos. Castro Alves também. Pelo menos 15 anos antes de Leandro Gomes de Barros, ele escreveu:

Era num dia sombrio
Quando um pássaro erradio
Veio parar num jardim.
Aí fitando uma rosa,
Sua voz triste e saudosa,
Pôs-se a improvisar assim.

“ó Rosa, ó Rosa bonita!
Ó Sultana favorita
Deste serralho de azul:
Flor que vives num palácio,
Como as princesas de Lácio,
Como as filhas de ‘Stambul. (…)

Isso é uma coisa magnífica em sextilha, com a rima num lugar diferente da que fez Leandro Gomes de Barros.

A Caravana deve cumprir esse papel de arrebanhar e de incentivar poetas.

Voltando à Caravana, o que me fez atuar no movimento, não foi minha notória criação como poeta, e sim a minha notória participação em movimentos sociais: agrupando, atraindo pessoas, trabalhando ideias como militante. Escrevi em décimas um pensamento sobre a Caravana:

Cumprindo um belo papel

Esta ideia genial

Sucesso nacional

Caravana do Cordel

Semeia verso a granel

Em cenários realistas

Para aumentar as conquistas

Na ribalta tira o pano

Dia a dia, ano a ano

Arrebanha cordelistas

Na minha concepção, a Caravana deve cumprir esse papel de arrebanhar e de incentivar poetas.

Quero deixar as sementes plantadas.
A: E você é presidente do Instituto Leandro Gomes de Barros, que é um projeto novo, que tem como ideia promover eventos e buscar fundos para divulgar a cultura popular nordestina, em especial o cordel. Como você vê o Instituto?

P: O Instituto é um projeto para o futuro. Nesse momento, nós estamos fazendo um planejamento para que o Instituto tenha uma visibilidade a contento no ano de 2013. Não sei ao certo as razões pelas quais meus colegas me escolheram presidente, mas talvez tenha sido pela facilidade que eu tenho em conciliar divergências. Isso é muito importante nesse estágio para que a gente crie um rosto e  possa realmente ter uma atuação significativa para a cidade de São Paulo e para o Brasil em 2013. Eu quero deixar a direção em 2014, com certeza deixarei, mas quero deixar as sementes plantadas.

Para que as pessoas possam ter mais liberdade.
A: Por que você quer deixar a direção em 2014?

P: Porque acho que é importante a gente não se perpetuar em nada, é importante que essa minha atuação como presidente seja transitória. Até para que as pessoas possam ter mais liberdade de produzir e de contribuir em outras frentes e desafios que haverão de surgir.

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